sexta-feira, 15 de março de 2013

Existencialismo em Sartre

 


                                                       O homem se constrói

            No Existencialismo o homem é o que ele se faz, é construtor de si mesmo, ele não nasce pronto, o que acarreta, como implicação ética, a responsabilidade do homem para com a construção do seu ser e o ser dos outros. O sujeito individual, enquanto agente de seu próprio destino, envolve a si e aos outros nas escolhas que efetua. É, portanto, responsável pela sua individualidade e por todos os homens. ao criar-se como quer ser, cria também uma imagem do homem como deveria ser. Há um compromisso do homem diante das escolhas que constroem a sua existência e, nesse sentido ele se torna um legislador para toda a humanidade. Sempre o homem deve se perguntar sobre o seu direito de agir de uma determinada forma, já que toda a humanidade pode observar sua ação e tomá-la como regra. Nesse sentido, perante a humanidade, o indivíduo vê-se coagido a realizar ações exemplares e a reconhecer a liberdade alheia como portadora das mesmas prerrogativas que atribui a si mesmo.
             O que se diria, adotando essa postura, sobre o atual cenário da política brasileira?

Isaias Kniss Sczuk é professor de Filosofia no Colégio Sinodal Doutor Blumenau e na Escola de Educação Básica Estadual José Bonifácio, ambas em Pomerode, Santa Catarina. Possui graduação em Filosofia e especialização em Metodologia do Ensino de Filosofia e Sociologia.





segunda-feira, 11 de março de 2013

Criaturas como nós? ( Portal Ciência e Vida)







      Não é a primeira vez que abordo, nesta coluna, o problema da consciência animal. Provavelmente não será, tampouco, a última.
      O que me motiva, desta vez, é uma matéria publicada há alguns meses em uma revista nacional de grande circulação. Nela, o neurocientista Philip Low anuncia ter feito uma descoberta estrondosa: a de que os animais, especialmente os mamíferos, têm consciência, e que, por isso, nossa atitude em relação a eles precisa mudar. Phillip Low, neurocientista da Universidade de Stanford e do MIT, assina um manifesto, juntamente com o físico Stephen Hawking, no qual exorta a comunidade científica a assumir suas responsabilidades bioéticas em relação aos animais.
      Afirmar que alguns mamíferos têm consciência não é novidade. Estudos sobre cognição animal, realizados por grandes especialistas nessa área, como os de Donald Griffin, na década de 1970, e os de Stephen Walker, na de 1980, já concluíam que a diferença entre as habilidades cognitivas conscientes humanas e as de alguns animais é apenas de grau. Não existe uma diferença qualitativa que nos torne radicalmente diferentes deles, sobretudo no caso dos mamíferos. A descoberta de Low, de que a consciência não depende inteiramente do córtex, e que se inicia em partes mais profundas e primitivas do cérebro, como, no tronco cerebral, também não é novidade em Neurociência.
      Muitas de nossas concepções e atitudes preconcebidas em relação aos animais se originaram de nossas tradições religiosas e filosóficas. Descartes é, frequentemente, apontado como o filósofo que negou que os animais tivessem consciência. Sem consciência, não há dor nem sofrimento e, por isso, não precisamos nos sentir moralmente culpados se nos alimentamos deles ou se os submetemos a experiências de laboratório. Mas não foi só o pensamento cartesiano que influenciou esse tipo de preconceito.
Rousseau é, também, um grande vilão nessa história. O homem do qual ele nos fala não é uma criatura inserida na natureza, mas, ao contrário, totalmente diversa da ordem natural. Ele é o homem da Declaração Universal dos Direitos Humanos, um ser humano que, por ser livre, se define como essencialmente social e político. Ou seja, a civilização e a Cultura são fatores decisivos para nos definir como seres humanos. Uma prova disso é que, de acordo com Rousseau, todos nascemos bons, e se não continuamos na trilha do bem é porque a sociedade nos corrompe e nos leva para o mau caminho. A metáfora do bom selvagem acaba nos excluindo radicalmente da natureza. A ascendência animal do ser humano pouco importa. Por não serem livres, os animais são criaturas sem história, e o fato de não serem sujeitos morais nem políticos faz com que, muito provavelmente, eles não tenham nada que se assemelhe à consciência humana. Animais não merecem nenhuma preocupação em especial, e, assim, podemos criá-los para depois utilizá-los como quisermos, sobretudo como alimento.
João de Fernandes Teixeira é PH.D. Pela University of Essex (Inglaterra) e se Pós Doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos.www.filosofiadamente.org
     Darwin está na contramão de Descartes e de Rousseau. De acordo com o darwinismo, há uma continuidade entre as espécies. Estamos próximos dos animais porque somos um prolongamento da árvore da vida. Se os animais se entredevoram, isso se deve a um princípio fundamental da teoria da seleção natural: a luta pela vida. Não há animais intrinsecamente bons nem maus e isso se aplica também ao ser humano. No entanto, por nos reintegrar parcialmente à natureza, é mais razoável para os darwinistas conceber a existência de uma consciência nos mamíferos e, em nome dela, reivindicar para essas criaturas alguns direitos. Isso pode soar paradoxal, mas explica por que movimentos em favor dos direitos animais predominam, atualmente, em países de língua inglesa, nos quais há uma presença marcante do darwinismo, nem que seja para combatê-lo, como ocorre, aliás, em alguns lugares dos Estados Unidos.
      As antropologias filosóficas francesa e darwinista são conflitantes. Mas, certamente, reconhecemos algo mais do que esse conflito ao lermos as declarações de Low. O problema está nos dilemas bioéticos que esse debate suscita. O uso de animais em experimentos científicos é uma questão que desafia a Bioética tradicional, baseada no informe consentido.
Até que ponto criaturas conscientes ou semiconscientes podem ser usadas nesses experimentos?
      As universidades se transformaram em verdadeiras linhas de montagem de novos artigos científicos. Muitas vezes um mesmo artigo precisa ser publicado várias vezes para engrossar as estatísticas anuais. Para que isso ocorra é preciso duplicar experimentos, na maioria das vezes, mudando apenas alguma de suas variáveis. Com isso, se garante uma originalidade, pelo menos técnica, à enxurrada de publicações, sem a qual a investigação científica sucumbiria por falta de verbas. Infelizmente, essa triste ciranda é feita à custa do sacrifício inútil da vida de muitos animais. Ora, estará a prática da Ciência em contradição com o que o próprio conhecimento científico sobre cognição animal revela?
      Não somos intrinsecamente bons, como supôs Rousseau. Temos de lutar pela vida como, aliás, todos os animais, o que justifica, em alguns casos, o sacrifício de vidas animais na realização de experimentos cruciais. São casos de legítima defesa da espécie humana; algo bem diferente do que ocorre nos biotérios, nos quais, infelizmente, ainda há um desperdício fútil de vidas animais.

sexta-feira, 8 de março de 2013


FELIZ DIA DA MULHER!!



Leitura
As Mulheres na Filosofia
O presente livro resulta de um trabalho de investigação que se desenvolve há alguns anos no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Com ele se pretende tornar visível a presença das mulheres, afastando definitivamente como capciosa a pergunta muitas vezes repetida: "Por que não há mulheres filósofas?".

A entrada das mulheres na filosofia do séc. XX
Momentos antes de morrer, Sócrates despede-se dos amigos, dos filhos e da família. O relato tocante que Platão nos deixa no Fédon é por demais conhecido. No entanto, há nele uma breve referência que passa despercebida à maior parte dos leitores: a ordem dada pelo filósofo para que as mulheres se retirem. Ausentes em todo o diálogo preparatório da morte, são mandadas sair quando esta vai concretamente ocorrer, como se apenas os discípulos, homens todos eles, pudessem assistir ao suicídio forçado do filósofo, do mesmo modo que só eles acompanharam as suas diatribes oratórias na cidade.
Este abandono (imposto) das mulheres no que respeita à filosofia, retrata bem o estatuto que as mesmas ocuparam no pensamento ocidental - a ausência. Uma ausência não deliberada mas compulsiva, não expressa mas sub-repticiamente justificada por razões outras que não as filosóficas.
A saída das mulheres, ordenada por Sócrates, é aceite pelos discípulos deste como algo de natural. Há um silêncio conivente dos filósofos, para os quais a condição feminina se circunscreve ao espaço privado, enquanto a filosofia é um acontecimento público, mesmo quando se desenrola num quarto e diz respeito ao ato íntimo de morrer. Um silêncio que se mantém ao longo de séculos. Intercalada por algumas intervenções femininas, a voz dominante da filosofia é masculina. O que é problemático para as suas atuais cultoras. De facto, como dizer às mulheres que hoje se interessam por filosofia - estudiosas, professoras, investigadoras, estudantes - que não existem, enquanto mulheres, na mente dos filósofos? Como fazê-las aceitar a universalidade do conceito do homem, pelo qual são designadas? Como convencê-las de que tudo o que as identifica enquanto diferentes, é desinteressante para a filosofia? E que reação esperar por parte de quem permanentemente se defronta com o silenciamento, a anulação ou a secundarização de temáticas que considera relevantes?
Com algumas excepções, os filósofos têm olhado as mulheres de um modo negativo, ou, quanto muito, condescendente. A tese platônica difundida no Timeu, segundo a qual a mulher representa uma forma inferior de humanidade (Timeu, 41 d - 42 d.), perdura até Freud, que, retomando Aristóteles, entende a mulher como um homem castrado.
Com o século XX esta situação altera-se, e podemos dizer que a partir dos anos sessenta ocorre uma mutação nas relações entre a filosofia e as mulheres. Os movimentos feministas que então ganham força, sobretudo nos EUA e países de língua inglesa, levam ao incremento dos Womens Studies ou Gender Studies, incluindo-os de pleno direito nos currículos universitários e nos projetos de investigação. A filosofia, essa "disciplina recalcitrante" que dificilmente se abre à inovação, sofre no nosso século o impacto deste "boom". Uma das mudanças manifesta-se em novas maneiras de apreciar o pensamento dos filósofos, mediante chaves de leitura que permitem uma visão diferente das suas teses, nomeadamente no que respeita à consistência interna das mesmas. Como diz Nancy Tuana, não basta interpretar certos sistemas procurando neles a parte (geralmente mínima) que consagram às mulheres. É preciso articular o que é dito sobre esta temática com a totalidade de um pensamento, de modo a que o resultado global do mesmo seja congruente. O que nem sempre acontece.
Uma outra linha de investigação, ainda ligada à história da filosofia, pretende restituir a voz a filósofas do passado, dando-lhes visibilidade e mostrando o impacto que tiveram. Habitualmente catalogadas como discípulas deste ou daquele nome sonante, começa-se a reconhecer nelas um pensamento autónomo, expresso através dos meios em que lhes era possível divulgá-lo, quer se trate de ensaios, de tratados, ou simplesmente de cartas.
Um outro campo que tem dado frutos releva temáticas tipicamente femininas, habitualmente não trabalhadas pelos pensadores tradicionais e agora redescobertas nas potencialidades filosóficas que encerram. Nele se inclui uma abundante literatura consagrada a questões como o nascimento, a relação maternal, o cuidado com os outros, o modo feminino de fazer ética, epistemologia, ontologia, lógica.

Haverá uma filosofia feminina?
É possível apontar no século XX alguns núcleos de filosofemas sobre os quais as mulheres se têm particularmente debruçado. É o caso da ontologia na qual a temática do feminismo radica, pelo relevo dado ao conceito de natureza humana. Quer consideremos a homogeneidade desta, quer a entendamos de um modo bipolar em função do sexo ou do gênero, quer a neguemos ou a fragmentemos, a natureza humana é sempre um marco incontornável, a partir do qual se levantam outras questões. E é na abordagem da natureza feminina que surgem dois problemas clássicos que nenhuma das orientações feministas ignora: o da igualdade e da diferença e o da relação sexo/gênero.
Também no domínio da lógica verificamos como são importantes para o pensamento feminista os temas da razão e da racionalidade bem como o da argumentação. No que respeita à ética, há toda uma controvérsia relativa à universalidade dos valores morais e à possível existência de uma moral feminina com os seus parâmetros próprios, colocando a tônica na contextualização e no envolvimento e desprezando a abstração e a generalização. No que concerne à antropologia temos questões relativas à identidade individual, ao sujeito humano e a uma possível diferenciação do pensamento feminino. Também a epistemologia tem sido um terreno profícuo nos debates feministas, nomeadamente no que concerne ao papel do gênero na captação do real, à legitimidade de um método científico universal e ao peso da masculinidade na construção científica. Por fim, relativamente à ecologia e à filosofia da natureza há correntes feministas com visões muito próprias, nomeadamente na aproximação feita entre as mulheres e a natureza, englobando-as numa mesma opressão que sobre elas tem pesado ao longo dos tempos.

O século das Mulheres?
Este é o título dado por Victoria Camps a um dos seus últimos livros. Nele constata que para a mulher de hoje, emancipada e detentora de direitos, já não se põe o problema da igualdade pois esta é-lhe atribuída como natural. Mas é grande a distância que vai da aceitação teórica e formal à concretização no quotidiano. É um caminho que exige uma mutação nas regras de convivência e na política, postulando uma outra gramática do poder.
É para a "feminização da sociedade" que a obra de V. C. nos alerta, numa proposta inegavelmente filosófica. Subscrevemo-la, lembrando que a filosofia teve, tem e terá um papel determinante em todas as mutações culturais pois o carácter teórico e especulativo que lhe pertence não a isenta de uma dimensão prática que a leva a enraizar-se na ação.
Muitos temas novos surgiram no panorama filosófico do séc. XX, desmentindo os defensores de uma filosofia perene, para os quais tudo de importante já foi pensado e dito. Alguns dos novos filosofemas inscrevem-se num paradigma que muito deve a contributos femininos - o cuidado. Circunscritas durante séculos à privacidade de um espaço doméstico, as mulheres nele aprenderam determinados valores que hoje pretendem transpor para o domínio público, reivindicando para si, e para todos, uma maneira diferente de estar no mundo.
A transformação das virtudes privadas em valores públicos é uma tarefa que se iniciou no nosso século, pela mão das mulheres. E se der os frutos que promete, será então lícito afirmar que o séc. XX é, verdadeiramente, o século das mulheres.

Maria Luísa RIbeiro Ferreira
In As Mulheres na Filosofia, ed. Colibri
22.02.10 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Antonio Gramsci, preconceito e filosofia do bom senso






Migalhas do pensamento


Entenda como tem início o preconceito para com a atitude filosófica nos dias de hoje 


por Marcus Rafael Rodrigues*




    Uma das apostilas do Ensino Médio da rede pública do Estado de São Paulo, os chamados "cadernos do aluno", traz um texto cuja maior referência é o filósofo italiano Antonio Gramsci. O texto dá apontamentos que visam conduzir, em linhas gerais, o estudante à compreensão de como se origina o preconceito, mas também mostra como a filosofia pode nascer daquilo que chamamos de bom senso.
    Por bom senso não entendemos aquilo que René Descartes expressou no início do Discurso do Método: "A faculdade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, propriamente chamado de bom senso ou razão, é, por natureza, igual em todos os homens". Bem, na verdade, a perspectiva cartesiana sobre o bom senso parte de uma compreensão positiva do mesmo, como se este fizesse parte da condição humana e, por isso, irrevogavelmente o ser humano sempre agisse com base no bom senso quando quisesse estabelecer um juízo de valor sobre alguma coisa.
     Com o conceito de atitude filosófica deparamos, senão com a maior, certamente com uma das maiores e mais genuínas ideias sobre a filosofia, uma vez que é quase consensual a interpretação da mesma sob a ótica humana. O que lhe confere, em última instância, um caráter de universalidade, e ao mesmo tempo, de compreensibilidade para a mesma, assim como sugere A. Gramsci ao mencionar que "todos os homens são filósofos", pois são capazes de filosofar através do seu dia a dia, das diversas situações em que se encontram frente ao inusitado, ao inesperado e ao complexo. A atitude filosófica é, sem dúvida, atitude humana e profundamente humana, da interrogação e da falta de compreensão ante à natureza, que corrobora nossa fragilidade e, porque não dizer, nossa falência, sobretudo no âmbito relacional e produtivo. Em suma, filosofar é deixar-se conduzir pela arguição, pelo assombro e, muitas das vezes, tornar-se um com o novo saber, do qual se está enamorado, aceitando assim não somente a diferença que vicia e ilude, mas que amadurece o pensamento.

A ALMA INTELIGENTE
          O grande problema da Filosofia nos dias de hoje, em que o militarismo instituído não mais determina os comportamentos e a erudição, é enfrentar com aquilo que Sócrates chama de alma inteligente, ou intelectiva, os desafios propostos ou os empecilhos postos pela ditadura velada, e ao mesmo tempo eficaz, do dinheiro, do capital, do consumismo, do mercado de trabalho, do neoliberalismo, da globalização e, principalmente, da desvalorização das questões referentes a humanidades. Essas, por sua vez, tornam-se cada vez mais relativizadas em prol de conquistas financeiras cada vez maiores, como impõe o sistema monetário do capitalismo "democrático" deste século.

       Nos relatos dos estudantes do Ensino Médio da rede pública, nas cidades do interior, onde se pode observar uma realidade muitas vezes mais carente e desprovida de recursos quando comparada com a realidade do ensino particular e dos grandes centros, é possível perceber parte desta realidade em que as questões de humanidades não carregam consigo o efeito de impacto que trazem as disciplinas de exatas. Isso ocorre, em justa medida, pela própria pressão sofrida pelos jovens quando de sua decisão quanto à profissão que desejam desempenhar; são os próprios pais que sob o pretexto de felicidade (financeira), implementam a ideia de valorização de profissões financeiramente rentáveis. Se assim pode-se chamar, com o capitalismo desenfreado há um "inconsciente coletivo" que caminha na direção de um verdadeiro colapso monetário, pois o que não se percebe é que as próprias relações (humanas), essenciais para a sobrevivência, tornam-se ameaçadas. E isso desde os relacionamentos macro das nações europeias, asiáticas, latino americanas e africanas, até os pequenos relacionamentos profissionais internos das micro e médias empresas, do setor público e, especificamente, a menor das células sociais, a própria família.
           Hoje, mais do que nunca, o preconceito para com a Filosofia passa por uma ditadura do útil, do rentável e do menor esforço, e assim as consequências da ausência de atitude filosófica são falta de voz, de comunicação, excessos que lembram prepotência e uma conduta massificada que visa tão somente o bem-estar sob o espectro do desenvolvimento do capital a todo custo. O que se deseja realmente de uma sociedade senão o equilíbrio de suas capacidades? Quando Gramsci sugere que é preciso destruir o preconceito para com a                 Filosofia é porque já havia constatado aquilo que Nicolla Abbagnano sugere em seu dicionário de         Filosofia, ou seja, que a noção de bom senso "tem como referência apenas o sistema estabelecido de crenças e de opiniões, só podendo julgar a partir dos valores que esse sistema inclui".
          Assim, em uma sociedade em que as profissões de caráter humano são desvalorizadas, necessariamente não se pode esperar que o bom senso tenha como pauta a atitude filosófica, pois o que está em evidência é a manutenção da mentalidade massificada pela exatidão dos dividendos do capitalismo.
REFERÊNCIAS
ABBAGNANO, Nicolla. Dicionário de Filosofia. 5ª Ed. São Paulo, 2007 http://www.antoniogramsci.com
Marcus Rafael Rodrigues é bacharel em Filosofia pela Universidade de Sorocaba (2003), bacharel em Teologia pelo Instituto João Paulo II - Sorocaba (2007), licenciado em filosofia pela Universidade Metropolitana de Santos (2010); Especializado em História, cultura e teologia judaicocristã pelo Instituto Sionita (UNIFAI-2010), é professor de Filosofia na Rede Pública do Estado de São Paulo

René Descartes ( 2 E.M. e E.J.A.)








     René Descartes, nascido em 1596 em La Haye - não a cidade dos Países-Baixos, mas um povoado da Touraine, numa família nobre - terá o título de senhor de Perron, pequeno domínio do Poitou, daí o aposto "fidalgo poitevino".

O Método

       Descartes quer estabelecer um método universal, inspirado no rigor matemático e em suas "longas cadeias de razão".
1. - A primeira regra é a evidência : não admitir "nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal". Em outras palavras, evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto, isto é, o que "eu não tenho a menor oportunidade de duvidar". Por conseguinte, a evidência é o que salta aos olhos, é aquilo de que não posso duvidar, apesar de todos os meus esforços, é o que resiste a todos os assaltos da dúvida, apesar de todos os resíduos, o produto do espírito crítico. Não, como diz bem Jankélévitch, "uma evidência juvenil, mas quadragenária".
2. - A segunda, é a regra da análise: "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis".
3. - A terceira, é a regra da síntese : "concluir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para, aos poucos, ascender, como que por meio de degraus, aos mais complexos".
4. - A última á a dos "desmembramentos tão complexos... a ponto de estar certo de nada ter omitido".
Se esse método tornou-se muito célebre, foi porque os séculos posteriores viram nele uma manifestação do livre exame e do racionalismo.
a) Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? "Aristóteles disse" não é mais um argumento sem réplica! Só contam a clareza e a distinção das idéias. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes, é importante ressaltar, o excluiu expressamente: o político e o religioso (Descartes é conservador em política e coloca as "verdades da fé" ao abrigo de seu método).
b) O método é racionalista porque a evidência de que Descartes parte não é, de modo algum, a evidência sensível e empírica. Os sentidos nos enganam, suas indicações são confusas e obscuras, só as idéias da razão são claras e distintas. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. A dedução limita-se a veicular, ao longo das belas cadeias da razão, a evidência intuitiva das "naturezas simples". A dedução nada mais é do que uma intuição continuada.

A Metafísica

No Discurso sobre o Método, Descartes pensa sobretudo na ciência. Para bem compreender sua metafísica, é necessário ler as Meditações.
1. - Todos sabem que Descartes inicia seu itinerário espiritual com a dúvida. Mas é necessário compreender que essa dúvida tem um outro alcance que a dúvida metódica do cientista. Descartes duvida voluntária e sistematicamente de tudo, desde que possa encontrar um argumento, por mais frágil que seja. Por conseguinte, os instrumentos da dúvida nada mais são do que os auxiliares psicológicos, de uma ascese, os instrumentos de um verdadeiro "exército espiritual". Duvidemos dos sentidos, uma vez que eles freqüentemente nos enganam, pois, diz Descartes, nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto! (Quantas vezes acreditei-me vestido com o "robe de chambre", ocupado em escrever algo junto à lareira; na verdade, "estava despido em meu leito").
Duvidemos também das próprias evidências científicas e das verdades matemáticas! Mas quê? Não é verdade - quer eu sonhe ou esteja desperto - que 2 + 2 = 4? Mas se um gênio maligno me enganasse, se Deus fosse mau e me iludisse quanto às minhas evidências matemáticas e físicas? Tanto quanto duvido do Ser, sempre posso duvidar do objeto (permitam-me retomar os termos do mais lúcido intérprete de Descartes, Ferdinand Alquié).
2. - Existe, porém, uma coisa de que não posso duvidar, mesmo que o demônio queira sempre me enganar. Mesmo que tudo o que penso seja falso, resta a certeza de que eu penso. Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida, mas o próprio ato de duvidar é indubitável"Penso, cogito, logo existo, ergo sum" . Não é um raciocínio (apesar do logo, do ergo), mas uma intuição, e mais sólida que a do matemático, pois é uma intuição metafísica, metamatemática. Ela trata não de um objeto, mas de um ser. Eu penso, Ego cogito (e o ego, sem aborrecer Brunschvicg, é muito mais que um simples acidente gramatical do verbo cogitare). O cogito de Descartes, portanto, não é, como já se disse, o ato de nascimento do que, em filosofia, chamamos de idealismo (o sujeito pensante e suas idéias como o fundamento de todo conhecimento), mas a descoberta do domínio ontológico (estes objetos que são as evidências matemáticas remetem a este ser que é meu pensamento).
3. - Nesse nível, entretanto, nesse momento de seu itinerário espiritual, Descartes é solipsista. Ele só tem certeza de seu ser, isto é, de seu ser pensante (pois, sempre duvido desse objeto que é meu corpo; a alma, diz Descartes nesse sentido, "é mais fácil de ser conhecida que o corpo").
É pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa solidão. Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente extraordinária. É a ideia de perfeição, de infinito. Não posso tê-la tirado de mim mesmo, visto que sou finito e imperfeito. Eu, tão imperfeito, que tenho a ideia de Perfeição, só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. Por conseguinte, eis demonstrada a existência de Deus. E nota-se que se trata de um Deus perfeito, que, por conseguinte, é todo bondade. Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado. Se Deus é perfeito, ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. Uma vez que Deus existe, eu então posso crer na existência do mundo. O caminho é exatamente o inverso do seguido por São Tomás. Compreenda-se que, para tanto, não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria, o que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável, isto é, a extensão e o movimento). Alguns acham que Descartes fazia um circulo vicioso: a evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata da mesma evidência. A evidência ontológica que, pelo cogito, me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. Por conseguinte, a metafísica tem, para Descartes, uma evidência mais profunda que a ciência. É ela que fundamenta a ciência (um ateu, dirá Descartes, não pode ser geômetra!).
4. - A Quinta meditação apresenta uma outra maneira de provar a existência de Deus. Não mais se trata de partir de mim, que tenho a ideia de Deus, mas antes da ideia de Deus que há em mim. Apreender a ideia de perfeição e afirmar a existência do ser perfeito é a mesma coisa. Pois uma perfeição não-existente não seria uma perfeição. É o argumento ontológico, o argumento de Santo Anselmo que Descartes (que não leu Santo Anselmo) reencontra: trata-se, ainda aqui, mais de uma intuição, de uma experiência espiritual (a de um infinito que me ultrapassa) do que de um raciocínio.

Outros pontos


          Descartes cria um método para bem conduzir nossos pensamentos. Para alcançar a verdade devemos seguir os seguintes princípios: Princípio da evidência, não admitir algo como verdadeiro se não tivermos evidências suficientes para considerar como tal. Princípio da análise, dividir os problemas em tantas partes quanto forem possíveis para que melhor possam ser resolvidos. Princípio da síntese, estabelecer uma ordem de relação entre nossos pensamentos, solucionando primeiro as questões mais simples e depois as mais complexas. E o princípio de controle, fazer constantes revisões de todo processo para ter certeza de que nada foi omitido.
            São também verdades nossas ideias inatas, como as matemáticas, pois nos foram dadas por Deus. E é no método matemático que ele vai fundamentar a ciência para conhecer e modificar o mundo. O mundo é uma variação de formas, tamanhos e movimentos da matéria e essas variações podem ser quantificadas e entendidas pela matemática através também da geometria.
            Descartes divide matéria de pensamento, para ele o pensamento, ou a substância pensante independe e é separada da matéria. A nossa consciência individual é separada do corpo e continua a existir mesmo sem o corpo. Nós somos um marinheiro navegando no mundo através do nosso corpo que é o navio, mas estamos ligados ao corpo de uma forma estreita, formando um todo com ele. A relação entre nossa consciência e nosso corpo se dá através da glândula pineal, que é a sede da nossa alma. Corpo a alma assim se misturam, mas não ao ponto que não seja possível distinguir uma da outra. Nesta relação podemos diferenciar algumas operações que pertencem somente ao corpo e outras que são específicas da alma. A alma busca o conhecimento da verdade, o corpo é responsável pelas sensações.